"E não ha flor mais bela no jardim do abismo, senão aquela que possui a qualidade da morte em seu perfume."
segunda-feira, julho 13, 2009
Jardim do Abismo
Caos
– Você se importa?
Ele desviou o olhar para as estrelas, não queria tentar sustentar o olhar dela. Após alguns instantes respondeu:
– Não... na verdade não, eu não me importo.
Ela tirou uma mecha de cabelo, que o vento jogou em sua face, e sorriu. Ele ainda era frio e ainda era distante, como se não pertencesse aquele lugar, mas ela não se importava com isso...
Cerâmica
– Como assim 'não'? – Ironizou o homem sentado a maior cadeira da sala. – Eu não vou aceitar uma resposta como essa, principalmente vinda de você!
O homem sentou-se, sua bengala tornava-se extremamente desconfortável em situações como esta, pigarreou e perguntou:
– O que você espera de mim, neste caso?
O homem sentado a maior cadeira sorriu, não um sorriso bonito, mas ao menos triunfante:
– Eu espero lealdade absoluta!
O outro voltou a ficar de pé, com a a ajuda de sua bengala. Ele havia conseguido, o maldito estúpido havia mordido a isca, mas não se permitiu sorrir, ainda não...
Outono
- Merda! Eu nunca vou conseguir me misturar à multidão!
Um estampido alto, calibre 45, ela poderia reconhecer este som em qualquer lugar. E pronto, não havia mais a multidão tão normal aquele horário, havia apenas o caos.
Era a hora de fazer o jogo de seu perseguidor, ela sacou suas duas pistolas...
Caos
Ele abriu a porta, o vento frio trespassou seu corpo trazendo consigo as finas gotas de chuva que a pouco começara. Era uma noite fria, a lua brilhava escondia por detrás das nuvens carregadas que dominavam o céu desde cedo, era uma noite que trazia consigo o torpor que ele procurava.
– Proibida... – Disse ele em voz alta.
Eis a palavra que insistia em não sair de sua cabeça, era a definição do todo. Ele caminhou, deixou a chuva fina molhar seu rosto, escorrer pela sua face, seu corpo tremia, mas ele não sentia frio. Ele sabia onde iria, mas não planejava isso, apenas era arrastado.
A chuva parou há algum tempo, o céu limpava rapidamente, ele já podia ver as estrelas quando chegou. Acendeu um cigarro, e observou a fumaça desenhar o caos a sua frente.
– Caos... Tudo começa e termina no mesmo ponto. – Ele disse olhando para o céu, como se dissesse as estrelas que aumentavam em numero.
– Não... não precisa ser assim. – Disse uma voz feminina, doce e suave.
Ele não se surpreendeu em ouvir esta voz aqui, não esta noite. Sem se virar para ela, ele tragou mais uma vez, seu cigarro sempre adquiria um gosto horrível na presença dela, jogou-o no chão, enquanto ouvia o som dos tênis dela no cascalho. Virou para ela, estava ao seu lado, olhando para as mesmas estrelas que o faziam ficar vazio, frio.
– Sabia que você estaria aqui. – Ela disse sorrindo, com um ar divertido.
– Certo que sim. – Ele respondeu olhando a face dela, levemente iluminada. Seus demônios acordaram, ele não tentou impedir, era inútil... Ela sempre trazia a tempestade.
– Adoro isso. – Disse ela virando-se para ele, olhando-o nos olhos. Seu rosto exibia um sorriso sincero, seus olhos exibiam um olhar devastador, quase insustentável.
Ele não disse nada, sabia do que ela falava, passou seu braco pela cintura dela e voltou a olhar para o céu. Nada mais foi dito esta noite, não era preciso.
