terça-feira, abril 06, 2010

Desfecho

Há um poço no qual me nego a mergulhar, e por não haver opção eu observo da superfície. A visão é real, mas distorcida e não oferece o suficiente para saber qual o sabor da agua, nem mata minha sede.
O mostro que eu criei, alimentei dos meus vícios, da minha forca e de toda mentira que contei a mim e fui capaz de acreditar... Enquanto fui capaz de acreditar. Agora eu me torno não mais que isso, nem menos, pois não posso ver alem da própria criação, todos os meus belos traços falsos.
Se havia o conforto de mais uma mentira, contada a lentos passos do relógio, não há mais, pois o calculo não foi preciso. A mentira, desmascarada por um erro tolo, é então somente mentira. E assim foi.
De todas as promessas que não cumpri, as únicas que me causam dor são as que fiz a de fronte a superfície do lago. Não hei de me envenenar por uma curiosidade negra, curiosidade alimentada pela fraqueza e medo; Não hei de mergulhar em uma mentira, por conforto, fundo o suficiente para descobrir que não poderei voltar.
Humano, apenas, que sabe onde encontrar a essência da sua mais vil fissura, e nela não mergulha por estar cansado de uma batalha que nunca travou. Por não saber confiar em uma resposta que permite a duvida... por duvidar simplesmente.
Há, sempre houve, um limiar. Não é um ano, nem mais poderia ser. O ultimo limiar não pode ser quantificado, não me sinto capaz disso, apenas sinto-o arrastando-se.... escuto suas garras arranhando o chão e me inquirindo sobre qual será o desfecho. Ele o sugere, como sempre.

segunda-feira, abril 05, 2010

Desgosto

Meu interesse morre exatamente no seu próprio limite... Por maior que seja a tentativa, não há o que ser acrescentado e eu me canso. As vezes algum mistério, o desconhecido por si só, outras vezes um teste de limiares... Então sobra o desgosto pelo que não oferece mais nada.

terça-feira, março 23, 2010

Primórdio

Infelizmente, talvez não o desejável pior exemplo. Quando se lê em sua textura uma fragilidade latente, os efeitos implícitos de tudo que foi, com uma clareza mórbida a melodia perde o mistério. Eis então que a visão critica e aguçada cobram seu preço, mostram suas garras e com elas arranham na profundidade para a qual são empurradas inutilmente, pois o som áspero, metal sendo retorcido impiedosamente, não pode ser abafado nem mesmo pela profundeza de um lago congelado... tão pouco pela alma rasa e comum, que tenta entorpecer a si mesma com as ilusões frágeis de conquista.
E não seria, por acaso, rasa a alma que busca consentimento para embriagar-se em ignorância? Talvez somente mais um tom ressonante de tão débil sensação táctil. Como saber? Pois se todas os acordes são repercussões dos anteriores, a musica seria apenas a imitação de um original que nunca existiu, um organismo auto-suficiente criando copias para suprir a falta da fonte.
Certamente eu prefiro crer que há algo de novo, um toque, uma vibração ou perfume, que surge pela curiosidade, pelo acaso ou pela descoberta e gera suas suaves ondulações na superfície do lago. E me frustra pensar que isso seria, como de fato parece ser, somente mais uma reação. Onde foi parar a ação original, o singular e primordial ato que precede o efeito?

segunda-feira, março 15, 2010

Superfície

E não há respostas absurdas, tão pouco precisas e sensatas
Quando se olha para o passado e se pode ver as linhas com clareza absurda
Enquanto o presente mergulha nas mais densas brumas e confunde o futuro
Quando os pensamentos são agitados pela forte tempestade, fortes ventos
E as lembranças se lançam e usurpam o lugar a superfície ensolarada
Quando deveria haver o ofuscar do tempo no que, com clareza, incendeia o ódio
E um brilho do que é novo, os cheiros e sons do que é, e não somente foi
Toda deliberação se inverte, confunde e mistura com o pó, e no pó morre
Talvez como as palavras vazias que se perdem num segundo
Ou mesmo, os gestos que são esquecidos pela ausência da verdadeira beleza
Pois este é o sentimento de ver vazio o que se preencheu com tanto esforço
Por alguém que acreditava poder encher de sentimentos voláteis
Uma superfície tão imperfeita quanto a alma mais egoísta e mesquinha
E nestas pontiagudas linhas o remorso se esvai com o ultimo acorde.
A ultima marca permanece, com sua essência latejante, uma lembrança
Pois é mais fácil perder um doce e belo perfume, de linhas suaves e suaves lábios
Do que o cheiro acre, salgado e arenoso do arrependimento
Somente, por si mesmo, o erro de um sentimento trocado e nada mais

Caos

Se você conta uma mentira para si mesmo por tempo demais, você fica resistente a encarar a verdade por trás da coisa. Talvez seja resistência a jogar todo esforco, despendido para acreditar, fora... Ou talvez, simplesmente, seja a necessidade arrasadora de nao ter sido enganado por si mesmo.